Psicoterapia: por que pagar?

Existe um imaginário, de maneira geral, em que psicoterapia é uma espécie de conversa para resolver questões e problemas pessoais. Com isso, pode-se pensar: “Ah, mas isso eu faço com meus amigos, é de graça!”.


Porém, há uma diferença entre a escuta de um profissional no momento do setting terapêutico e uma conversa em um encontro com um amigo. Neste último caso, podemos ouvir conselhos e palpites sobre nossos problemas, já numa psicoterapia que se faz séria e dentro dos limites éticos, não. 


A prática do psicólogo deve fomentar no paciente o empenho em traçar seu caminho em busca da autorregulação emocional e do desenvolvimento profissional e pessoal. Este não deve esperar que o Psicólogo o ensine a conduzir sua vida, pois o objetivo de uma psicoterapia é gerar autoconhecimento.


Com isso, somado a outros fatores, cria-se algumas resistências para se iniciar o processo psicoterapêutico. E então, o tempo entre ter em mãos o cartão do Psicólogo e adentrar no consultório, de fato, pode ser longo. Analisaremos através de um viés Psicanalítico, já que essa prática é conhecida por ser, geralmente, de alto custo.


O dinheiro


Dentre as resistências para se iniciar uma psicoterapia, aqui entendida como processo de análise, a questão do dinheiro se apresenta como fator importante. “Se é só conversar, por que pagar? Por que pagar tão caro por uma sessão?” Talvez por que o ato de pagar convoca o paciente ao âmbito da responsabilidade.


Trabalhamos e temos nossas contas no final do mês. São nossas responsabilidades. E a psicoterapia tem que ser uma delas, se o objetivo for entrar realmente num processo de análise.


De fato, como aborda Elza Macedo no artigo "Do Pagamento em psicanálise”, se um paciente toca na questão do dinheiro em uma sessão, o psicólogo, não deve ouvir isso dentro de uma relação comercial mas sim entendê-la como algo a ser tratado e trabalhado na terapia, tal qual uma formação do inconsciente.


“A colocação do pagamento faz o inconsciente trabalhar e o valor cobrado numa sessão é uma intervenção do psicólogo. É o que possibilita que o símbolo alcance o real. Ou seja, o sujeito é chamado para além do valor simbólico do dinheiro, para um lugar inabitado. Mesmo que não haja pagamento, ele está lá.” 


Na clínica particular o psicólogo é responsável pelo tratamento “e é ele que decide pelo ato arriscado da incisão a ser feita”, ou seja, qual valor será cobrado pela sessão, qual seu valor de troca nessa teia de relações. É ele que vai dar o tom da responsabilidade ao paciente, de “deixá-lo em dívida” para que possa progredir na direção do tratamento.


O dinheiro possui suas significações inconscientes para cada indivíduo e o valor a ser cobrado refletirá na dinâmica terapêutica, na relação entre paciente e psicólogo. Contudo, não se deve ter uma postura de generosidade pois isso engessa a clínica.


Isso não significa que não se deve analisar cada caso cuidadosamente e entender realidade social de cada paciente para que a psicoterapia possa alcançar a todos que dela necessitem.

Também não é dizer que não pode haver tratamento gratuito, pois em todo caso há uma “forma de pagamento”. Nem que seja o tempo depositado a ir na psicoterapia ou o valor do deslocamento para se chegar ao consultório.


Porém, há uma hipótese de que com o tempo, o fato de ser de graça leva a uma falta de responsabilidade por parte do paciente e após os primeiros benefícios terapêuticos, o mesmo muda sua demanda, ou seja, seu motivo de fazer psicoterapia, e passa a ir contra o tratamento, seja desvalorizando-o, seja se acomodando em seu próprio sintoma.


É por isso que nesses casos onde o tratamento é gratuito, deve-se deixar claro o motivo para tal e que seja com uma faixa de tempo pré-determinada. Como exemplos práticos podemos citar o estágio em Clínica nas faculdades de Psicologia e os tratamentos ambulatoriais em hospitais gerais feitas por psicólogos ou estagiários. Vale ressaltar que há exceções, já que a prática clínica nunca deve ser engessada e restrita somente aos limites técnicos e metodológicos das teorias.


Portanto, é claro que deve-se cobrar pelos atendimentos psicológicos, mas levando em consideração que essa atitude vai além da questão comercial/mercadológica. Vai para além da Psicologia como mercadoria.


Há um aspecto de importância terapêutica no ato de pagar uma sessão de psicoterapia. O pagamento é um gesto que se repete e faz com que o paciente se depare com a realidade . O essencial na terapia é recordar, repetir e elaborar.